A história da guitarra nos revela as variadas e drásticas mudanças e inovações pelas quais o instrumento já passou.
É um instrumento que oferece condições para as mais diversas manifestações musicais, para expressar anseios, alegria, rebeldia, para contestar ou para se divertir.
Mas o instrumento, por ter uma ligação intima com a música popular, ainda desafia muita gente, continua sofrendo enorme preconceito, e é bom lembrar que já fizeram contra ele até uma passeata.
É um instrumento que oferece condições para as mais diversas manifestações musicais, para expressar anseios, alegria, rebeldia, para contestar ou para se divertir.
Mas o instrumento, por ter uma ligação intima com a música popular, ainda desafia muita gente, continua sofrendo enorme preconceito, e é bom lembrar que já fizeram contra ele até uma passeata.
Em muitas escolas não é aceito e em outras é “domesticado”, já ouvi histórias de professores que proíbem o uso de pedais, que proíbem que os alunos puxem as cordas. Alguns se importam muito mais como a posição ideal dos dedos do que com a música que sai das cordas.
O que essas pessoas não respeitam ou até desconhecem é que existem muitos “jeitos” de se tocar um instrumento, Como diz um bom amigo, muitos faltaram nas primeiras lições, ou esqueceram que a guitarra é apenas um instrumento e que a música é o que importa.
Por isso decidimos recuperar a sua história, esse conhecimento também pode ser um ponto de partida para respeitarmos a diversidade cultural do mundo que nos cerca, sem esquecer que é impossível obter uma leitura abrangente e definitiva do passado, porque o estudo histórico permite várias abordagens, nem sempre isoladas de alguma subjetividade.
A guitarra e os EUA
Plantação de algodão no início do século XX
Vamos situar a história da guitarra em solo americano porque foi lá que ela se desenvolveu no caminho da eletrificação, por lá nasceram seus principais artistas, e acima de tudo porque os EUA exerceram e ainda exercem uma forte influencia cultural em grande parte do mundo.
No final do século XIX, a liberdade dos negros se mostrou muito mais um conceito do que uma realidade. Principalmente no sul dos Estados Unidos, a segregação racial eliminou os direitos que os negros supostamente tinham alcançado após a Guerra de Secessão americana. A vida em uma fazenda era difícil e o canto e a dança, praticados no trabalho nas lavouras ou nos raros momentos de descanso, serviam para aliviar a condição de miséria.
Mas a música não era apenas um lamento, era feita também nas igrejas e nos cultos herdados das tradições culturais africanas, nas ruas retratando o cotidiano das pessoas e se misturava com a música trazida pelos imigrantes europeus. Nesse contexto as músicas de trabalho (work-songs), os cantos religiosos (spirituals) e os gritos (Shouts), tão comuns na cultura afro-americana, se misturavam com as polcas, as valsas e as marchas.
Para acompanhar os cantos e a dança, a guitarra acústica era amplamente utilizada. Nas áreas rurais, porém, os instrumentos eram ruidosos, o aprendizado era feito observando os outros músicos quando tocavam, raríssimos negros tinham condição de freqüentar escolas, e nessas condições aos poucos foi se criando uma nova maneira de tocar a guitarra acústica, diferente da escola européia.
Muitos usavam afinações alternativas, o polegar era usado para segurar as cordas no braço do instrumento, dedilhavam de diversas maneiras sem seguir os padrões e a postura “clássica”, arpejavam repetindo os dedos, outros usavam dedeiras e palhetas, e enfim tocavam como podiam ou como achavam melhor para “tirar” o som da guitarra.
Entre um verso e o outro improvisavam ou tocavam gaita, que era outro instrumento barato.
Mas as melodias do canto africano, adaptadas ao instrumento temperado, não podiam ser reproduzidas, foi necessário usar artifícios que modificassem a altura dos sons e que criassem as entonações desejadas, para isso os guitarristas desenvolveram um jeito de tocar repleto de glissandos, arrastos e vibratos, e principalmente, sob influência da música havaiana, começaram a usar gargalos de garrafa (bottleneck), metais, anéis e até facas que deslizavam sob as cordas.
Uma historia contada por W. C. Handy (1873/1958) mostra como esse jeito de tocar era novo e interessante. Handy, considerado por muitos como o “Pai do Blues”, dizia que quando esperava um trem no Mississipi, ouviu um negro tocar violão usando uma faca, que arrastava pelo braço do instrumento ao estilo dos havaianos, e que aquele efeito surpreendente teria sido a inspiração para compor a primeira canção de Blues, inicialmente chamada “Mr Crump”, e publicada em 1912 com o nome “The Menphis Blues”.
O rio Mississipi , seu delta, o delta do rio Yazoo e as cidades da região, formam a principal área para conhecermos o começo da história da guitarra moderna, por lá nasceram e se desenvolveram o blues, o ragtime e o jazz. Por lá nasceram também os principais expoentes da música negra americana. A extensa malha ferroviária que passava pelas principais cidades e as importantes rodovias, ajudaram a criar as lendas envolvendo trens, encruzilhadas e pactos com o diabo.
Muitos artistas e viajantes percorreram a chamada “trilha do Blues” que começava em Nova Orleans, passava por cidades como Memphis e acabava em Chicago no norte do país, O movimento migratório se tornou mais intenso com o começo da primeira guerra mundial, as indústrias cresceram no norte dos EUA e muitos sulistas viam nas cidades do norte, como Chicago, a chance de ascensão social. O importante é que muitos desses viajantes se encontravam, tocavam e trocavam experiências difundindo o novo jeito de tocar a guitarra.

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